Esses dias abri uma das minhas muitas gavetas. Sentei-me com ela no chão, sob o pretexto de organizá-la melhor; minha intenção, eu sabia, era apenas visitar algumas recordações, tê-las nas mãos novamente, talvez imaginar voltar no tempo. É difícil se desfazer de recordações. Mas às vezes é preciso – sob o pretexto de organizar as gavetas – tentar deixar para trás as lembranças que nos prendem, e suspirar feliz com as que nos inspiram.
Era uma das minhas gavetas mais empoeiradas. Cheia de coisas pequenas que não teriam significado algum para qualquer outra pessoa; para mim, significavam um mundo. Um mundo que conheci na infância. Sim, era a minha infância ali guardada, empoeirada, esquecida. Talvez seja essa a razão de eu precisar tanto abri-la.
A primeira coisa que vi foi uma pasta de desenhos. Entre os muitos que encontrei, alguns me chamaram a atenção. Um deles ilustrava uma bailarina. Era eu. Como toda menininha, sonhava ser uma bailarina. Sonhava com os palcos, as sapatilhas, os vestidos, as piruetas e toda a delicadeza e magia que envolve a ideia de dançar. Não demorou muito para que o sonho se desfizesse; ainda assim, restou em mim a doçura de ter um dia sonhado com isso. É o prazer que as recordações trazem.
Outro desenho que ali encontrei foi o que eu pintara ainda muito pequena, quando mal sabia diferenciar um lápis de uma caneta. Estava ali desenhado um pote de doce de abóbora. O doce que minha avó fazia. Na minha vida, experimentei muitos doces, e doces de muitas avós. Mas nenhum era como aquele. O doce que minha avó preparava, na casa pequena onde vivia, tinha um gosto diferente. Tinha gosto de felicidade.
Encontrei naquela gaveta alguns livros. Muitos livrinhos fininhos – sim, no diminutivo – que alegraram a época em que eu estava aprendendo a ler. Alguns, mais grossos, cujas histórias até hoje posso ouvir, na voz de meu pai. Uma ou outra Bíblia, que foram sendo presenteadas ao longo da minha vida. Muitos contos de fada, coleções de fábulas e livros de colorir. Vendo-os ali, me dei conta de que deveria ler mais agora.
Havia ainda algumas cartas. Saudações de amigos que foram morar longe, tios me perguntando como estava a escola, cartas de minha irmã mais velha, me contando sobre a vida de casada. Eram poucas as cartas que eu recebia, mas respondia cada uma, com imenso carinho e cuidado. E que alegria sentia quando alguém se lembrava de mandar-me uma carta! Ainda hoje, tanto tempo depois, me lembro de como me sentia feliz e importante. Por alguns momentos, era como se fosse uma adulta, que recebia e respondia sua correspondência.
Por fim, encontrei alguns discos. Canções populares da época, música clássica – que minha mãe insistia que eu apreciasse – e cantigas para crianças. Eram poucos, e coloquei-os do meu lado.
O fundo da gaveta tinha purpurina e lantejoulas. Não faço ideia de por que estavam ali, mas considerei uma surpresa delicada para mim mesma. Envolviam minhas recordações, meus pequenos pertences da infância, e davam à gaveta certa magia, um ar de sonho.
Ao colocar minha gaveta em seu devido lugar, pensei um pouco sobre como sempre me esqueço de sua existência. É curioso como nos esquecemos, todos os dias, das coisas que vivemos ou sonhamos nos anos mais puros e mais ingênuos da vida. É como nos esquecermos, dia após dia, do que somos feitos. Esta gaveta da minha história é apenas uma. Apenas uma de muitas gavetas, esquecidas e empoeiradas, que guardo dentro de mim.
...seu blog ganhou mais um seguidor.
ResponderExcluirTalvez venha a ter, e se tiver interesse, siga http://agoracarpediem.blogspot.com/
Abraço
Uma jovem com muito potencial para escrever.
ResponderExcluirestou te seguindo tá.....
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