domingo, 23 de setembro de 2012

Alice

Ela deve ter uns doze anos, não que isso importe muito. Vive com o cabelo desajeitado invadindo-lhe o rosto magricela, sem graça e sem cor. Não ri muito e, quando sorri, apressa-se a esconder os dentes cheios de falhas. Não fala muito e, quando fala, logo para por medo de não ser compreendida e por medo de acharem feia sua voz.
É cheia de ostracismo e sua cara é um par d'olhos arregalados. A boca não é nada - nem bela nem curiosa, apenas está lá e serve de entrada para sua subsistência.
Não tem grandes amigas, não tem grandes amigos, nem paqueras, nem amor dos pais.
Mas carrega uns livros, cheios de poesia e amor e amores e poesias. Carrega uns livros. Umas folhas de papel amarelado, cheias de traças e buracos, tentando manter-se unidas dentro duma capa dura e velha, que  se não é fria é porque é aquecida pelo colo jovem da menina. Alice se une a eles, entra neles, funde-se neles sem querer voltar atrás. Não porque sua vida seja tão ruim, não porque seja o único lugar para fugir.
Alice penetra a letra que está impressa, e se faz parte da tinta que está presa ao papel que está preso às suas próprias mãos. Ela faz isso porque quer. Ela faz isso porque a vida ali é mais bela que a vida lá fora, a vida fútil que vê os outros levarem. Ela não quer sua vida misturada às vidas vazias de tudo o que vê. Ela quer sua vida unida e mesclada àquelas vidas belas que pulsam no papel estático, que salta aos seus olhos e a chama e a convida a permanecer ali.
Ela canta ouvindo Cartola e Elis Regina, e sorri de ver quadros de Tarsila. Ela ama a voz do vento quando ele lhe canta e sussurra poesias que só ela conhece, e é só ela que ouve os versos de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Ela sorri e suspira, apaixonada por Machado de Assis e José de Alencar. Ela chora, suspira e vive por Ismália e Iracema, por Dante e por Peri.
Ela não deixa seus livros sós em casa. Leva-os consigo, absorve-os por osmose. A língua é solvente de todo aquele encanto, e é a língua que penetra seu corpo e seu coração. É a língua - a última flor do Lácio de Olavo Bilac - que penetra suas veias e corre para o seu coração e para sua boca. É a sua língua mãe que move seus lábios, faz que ela tenha vontade de dizer coisas belas e cantar. É a sua língua que lhe faz mexer o corpo e balançar a alma, é a língua que abre seus olhos para que ela possa ver tudo que há de belo na sua vida.
E a sua vida tímida e pequena torna-se grande e desapegada, porque ela vê e pensa, ouve e canta, lê e escreve, sente e suspira em português.

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