segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sobre a passagem do tempo.


É engraçado como o tempo é valorizado. É engraçado como o tempo é passageiro. É engraçado como o tempo gosta de passar, levar suspiros e chances de fazer algo melhor. 
O tempo é valorizado e não é, ao mesmo tempo. É valorizado porque sempre - ou quase sempre - o passar do tempo é retratado como algo muito significativo. Tanta importância lhe é atribuída que comemoramos, a cada ano, um ano mais; poderíamos - seria muito lógico - lamentar que é um ano a menos que nos resta. Ao contrário, cada ano de vida, cada mês de namoro, cada dia de festa é celebrado como se fosse o primeiro. Pode-se citar muitas razões: refletir sobre o que foi feito, planejar o próximo ano, criar apenas uma desculpa para se reunir com os queridos... não pretendo avaliar cada hipótese. Na verdade, o que acredito é que seja simplesmente por celebrar o tempo. O tempo, esse tempo que passa; passa e não volta, fantástica continuidade.
O tempo, esse tempo que não fica, apenas vai embora. O tempo é um rio que corre. As suas águas nunca são as mesmas, já dizia Heráclito. O tempo flui. O tempo corre, o tempo urge. O tempo escorre como areia pelas minhas mãos. O tempo conversa, o tempo é poesia. Apenas poesia, apenas prosa. Ele é o suspiro mais passageiro. O tempo passa como passa a correnteza: não importa o que façamos, ela passa por nós; e se não nos apoiarmos em algum lugar, nos leva também.
O tempo nos leva para longe de onde estamos. Quebra todas as expectativas, mexe em todas as nossas certezas. O tempo mexe em todas as nossas referências. Podemos, sim, insistir que nunca vamos mudar. Mas mudamos. O homem flui. O tempo flui. Tudo flui, novamente Heráclito. É uma correnteza sem fim, contínua. Poderosa.
Talvez por ser tão cheio de mistérios, tão cheio de surpresas e por trazer tantas inquietações, é que o tempo seja tão admirado. O que não se entende, se contempla. Não fará mal. Não é necessário controlar o tempo, segurar o tempo, entender o tempo. Não se entende. E que é o tempo, senão apenas uma propriedade desse universo em que vivemos? Que é o tempo, senão mais um elemento da Criação? Não é senhor, nem superior a ninguém. O tempo é apenas tempo - e aqui já se escorreram segundos, minutos, horas, dias e milênios. É apenas tempo.
Mas é fato que o tempo pode trazer alegria e tristeza, sol e neve, amor e saudade, lágrima e suspiro. O tempo pode, sim, levar o ser humano (pobre ser humano, tão frágil, tão vulnerável!), mudar suas ideias, mudar sua rotina. O tempo leva sonhos velhos e traz outros novos, leva alegrias e traz saudades, leva lágrimas e traz mais força, leva suspiros e traz experiências, leva pessoas e traz consolos. 
O tempo, se não nos leva, leva alguma coisa de nós. Mas retribui, e nunca traz menos do que levou.

2 comentários:

  1. filosófico, profundo. O tempo vai além do pensar, além do passar,do pesar. Tempo é o caminho que percorremos e retrocedemos para continuar caminhando

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  2. Olá Bia. Antes de mais obrigada pelas tuas palavras. E que bem que sabes utilizá-las. Gosto da tua escrita, do teu sentir. Em ti está a prova de que o tempo, não tem tempo. Aquilo que escreves, e como escreves, está muito para além do tempo que é a soma dos teus dias.
    Nunca deixes que a correria da vida te impeça de materializar, num qualquer pedaço de papel, tudo o que te vai na alma.
    E acredita que poesia, é tudo aquilo que sentimos. Seja em silêncio, em prosa, ou em verso.
    Envio-te um beijo, do lado de cá do Atlântico... que não sei se é o lado onde estás :)
    ervadecheiro (e porque é que tudo tem que ter um nome)

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