Era uma garota tímida. Estava ali
parada na parede gélida, pensando coisas que ninguém mais pensaria. Era única.
Aproximou-se das pessoas, que
dançavam sob a música. Parou para ouvir as batidas sólidas, a melodia líquida.
Seu olhar voava como um pássaro sobre a sala, até que pousou noutro olhar.
Dois olhares se cruzaram rápido.
Seria muito lógico se nunca mais se encontrassem, tão tímidos eram. Mas não foi
o que aconteceu. Desafiando as leis de toda ciência, procuraram-se. A garota
entendia de física, química e gramática, mas não entendeu como aquele olhar
surgiu ao seu lado, tão próximo.
Mirou à sua frente um olhar
límpido. Sentiu-se tão pálida, tão pálida que queria corar – um desejo irônico,
porque detestava corar. Mas o olhar que a prendia ali, parada e vulnerável, era
castanho e tranquilo. Como era típico, ela não se atreveu a falar. Observou,
discreta, o jovem em volta daqueles olhos. Deixou-se observar por ele. Mas o
seu olhar contínuo não olhava para a garota por inteiro. Aqueles olhos penetravam
os olhos azuis da menina, podiam ver o seu âmago. Ela tinha a sensação de que
aquele olhar podia ver toda a sua existência – da sua infância aos pensamentos
íntimos, todos num pacote só.
Ela não sabia dizer o que era
aquela coisa áspera que lhe surgia no estômago. Aqueles olhos não eram cínicos,
nem céticos. Ela confiava neles, sem ter dúvidas. Desejou que eles a
capturassem e aplicassem nela toda espécie de estratégia. Antes, estava
solitária na sala cheia de gente; mantivera seu olhar fixo na lâmpada amarela.
Agora, deixava-se levar por algo totalmente novo – ela, que pensava conhecer de
tudo – e queria, ao menos uma vez, não saber de nada.
Ouviu a voz melíflua que
conversava com ela e respondeu as coisas mais amáveis que pôde. Sentiu algo que
lhe fazia cócegas e sorriu, porque era tudo muito romântico. Nunca vivera
aquilo antes – a frágil faísca de se apaixonar pela primeira vez...!
A garota entendia de parábolas e
hipérboles, metáforas e metonímias; mas foi só naquele momento que ela percebeu
que vivia na ignorância, em matéria de amor.
Esse texto é do ano passado. Fiz como exercício (daí o nome, que não quis mudar quando digitei); a ideia era tentar usar paroxítonas para construir a trama.
Esse texto é do ano passado. Fiz como exercício (daí o nome, que não quis mudar quando digitei); a ideia era tentar usar paroxítonas para construir a trama.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário.